Os clubes da Série A gastaram quase R$ 2 bilhões em contratações no início de 2025, praticamente a soma da janela de verão e de inverno de 2024. O dado impressionante confirma um cenário ao mesmo tempo promissor e alarmante, de um completo descontrole e falta de regulação dos investimentos.
O GLOBO passou as últimas semanas conversando com dirigentes, agentes do mercado e especialistas, e a expectativa é que a bolha do futebol brasileiro chegou para ficar, com um mercado inflacionado que promete criar um novo abismo no médio prazo entre os clubes mais e menos organizados com as suas finanças.
O ambiente cada vez mais concorrido do futebol brasileiro leva a gastos maiores em salários e direitos econômicos, em um momento em que o mercado da bola é inundado com recursos não só de investidores, como também de patrocinadores, em especial as Bets.
Em meio a novos contratos de direitos de transmissão assinados por dois blocos, a Libra e a LFU, e a explosão de SAFs, os clubes admitem temer uma inflação cada vez maior, mas fazem pouco coletivamente para estourar a bolha. Na verdade, contribuem para ela.
“A bolha é um efeito de ter mais dinheiro e do hábito de não ter responsabilidade fiscal. Quando você acumula dívida, tem que sobrar alguma coisa, se não só vai aumentar a dívida. E isso gera o pagamento de juros. Que são uma despesa que não resulta em nada. O endividamento só faria sentido se fosse para construir alguma coisa, como um estádio que amanhã vai dar receita adicional. O que falta é essa responsabilidade. O advento de uma liga poderia ajudar, mas com os clubes liderando essa discussão”, diz Fred Luz, que foi CEO o Flamengo e do Corinthians, e é consultor da Alvarez & Marsal.
Bets quase dobram patrocínios aos clubes
A empresa participou nos últimos anos de diversos trabalhos de recuperação financeira nos clubes, em alguns casos com implementação de SAFs e pedidos de recuperação judicial. Se a origem dos investimentos mudou nos últimos 20 anos, não é possível dizer o mesmo sobre a mentalidade da maioria dos dirigentes, inclusive os que compõem as sociedades anônimas tidas como profissionais. Com o advento das casas de apostas, os patrocínios saltaram da casa de mais de R$ 600 milhões em 2024 para quase R$ 1 bilhão em 2025 nos clubes da Série A.
Além das receitas de televisão, que sempre foram importantes e muitas vezes adiantadas, os clubes ainda receberam luvas dos contratos mais recentes com a Libra e a LFU. Pagar dívidas e impostos com esse dinheiro novo, porém, não é prioridade para todos, mesmo as SAFs, em função da pressão por resultados imediatos. Sem falar em casos de atrasos de salário, direito de imagem e recolhimento de impostos espalhados por grandes equipes da Série A.
A regulação de todo esse processo é complexa, segundo fontes do mercado ouvidas pela reportagem, pela matriz diversificada dentre os clubes da Série A. Além dos mais organizados Flamengo e Palmeiras, ainda associativos, há SAFs multiclubes, como Botafogo e Bahia, SAFs compradas por mecenas, como Cruzeiro e Atlético-MG, e SAFs que deram errado, como a do Vasco, que entrou com pedido de recuperação judicial. Pressionado por contratar reforços mesmo nesse cenário, o presidente Pedrinho admitiu a O GLOBO que o problema é mesmo dos dirigentes.
— Os altos salários no futebol existem porque o mercado paga por eles. O problema não é a valorização dos jogadores, mas a irresponsabilidade de dirigentes que assumem compromissos sem ter condições de honrá-los, muitas vezes cedendo à pressão da torcida. Isso leva a atrasos, calotes e manobras contábeis para maquiar a situação, sem qualquer punição real para quem são os responsáveis pela gestão — disse o mandatário vascaíno, que ofereceu a Rony, do Palmeiras, um contrato de quatro anos, com salário maior do que o Atlético-MG. Na ocasião, a direção do Palmeiras ignorou a disputa e priorizou o Galo.
Segundo Pedrinho, o Vasco é um exemplo recente desse cenário descontrolado. O ex-jogador alega que em 2024 a 777 Partners antecipou todas as receitas da SAF, comprometendo o futuro financeiro antes do imbróglio judicial.
—Prevendo o estouro da bolha financeira da 777 dentro da VascoSAF, solicitamos garantias que não foram dadas. Conseguimos administrar o Vasco em 2024 sem adiantar as receitas de 2025. Agora, o desafio é consertar o estrago que a 777 causou, reconstruir a credibilidade e adotar uma gestão financeira responsável. Além disso, o Vasco passa por uma mudança cultural real, focada na recuperação de forma concreta, e não apenas no discurso. O remédio é amargo, mas é a realidade — completou Pedrinho.
Fla quer calendário, mas soluções não são conjuntas
A realidade é que a dinâmica do futebol joga contra tudo que está se pregando nos discursos. Personagens do mercado são unânimes em reconhecer a necessidade de uma Liga forte, como em outros países, e uma atuação maior da CBF, que desenvolveu uma regra de fair play financeiro que jamais implementou. A entidade, por sua vez, já liderou discussões sobre o tem, até em outras gestões, mas isso sempre foi jogado para frente, com prazo de três ou quatro anos para ser adotado. Quando chegava na hora, os clubes recuavam. A atual administração, do presidente Ednaldo Rodrigues, entende que essa é uma discussão que tem que partir dos clubes. Houve encontros com o mandatário e alguns presidentes esta semana, e o tema não ganhou fôlego. Após o carnaval, o Conselho Técnico se reúne e haverá nova oportunidade. Sem falar no fórum dos clubes para discussões do gênero, na Comissão Nacional de Clubes.
Seguindo O GLOBO apurou, o Flamengo, que nos últimos 12 anos passou um terço do tempo se reestruturando financeiramente sem ganhar quase nada, defende que deveria haver um calendário para que os clubes se equilibrassem para não gastar mais do que arrecadam. Tido como trem pagador do futebol brasileiro, com receita acima de R$ 1 bilhão desde o ano passado, o Rubro-negro também lida com a inflação em seu elenco. E vê com ceticismo uma regulação em bloco entre os clubes. Internamente, os dirigentes brincam que se não pagassem as obrigações fiscais, daria para montar outro time, tão poderoso quanto o atual. Hoje, mais de 50% dos titulares recebem acima de R$ 1 milhão de salário. Na gestão anterior, por não aceitar a pedida de Gabigol, o ídolo em fim de contrato foi contratado pelo Cruzeiro com salário na casa de R$ 2 milhões, com recursos do empresário Pedro Lourenço, novo dono da SAF.
A ideia da Raposa é repetir a receita do Botafogo, que investiu alto em atletas, teve bons resultados esportivos, lucrou com eles, e voltou ao mercado forte. São cerca de R$ 500 milhões investidos por John Textor até agora em 2025, contra R$ 400 milhões no ano anterior, quando a previsão de receita da SAF foi de R$ 700 milhões. É o clube mais gastador do Brasil hoje, rivalizando com o Palmeiras. O problema é que são vários investidores caminhando nessa direção, o que inflaciona o mercado de jogadores. Como não se pode reduzir salários pela legislação brasileira, se houver um teto de pagamentos será com os valores atuais praticados. Sem contar que todos esses investidores, na janela que se encerra em 60 dias, fazem o trabalho de contratações em conjunto, o que eleva naturalmente o preço dos ativos, já que os atletas disponíveis no mercado e as exigências táticas são quase as mesmas. O que alguns clubes fazem? Oferecem mais do que podem, mesmo sem garantias. E os agentes que concorrem em um mercado específico topam o negócio.
“A culpa é da nossa classe também. Por que se todos chegassem a partir de agora e dissessem que não colocariam mais jogadores nos clubes que não pagam, enquanto todos não recebessem, garanto que isso ia acabar”, afirma um intermediário.
O Corinthians é um caso clássico. Tem uma fila de credores enorme, entre atletas e empresários, com casos na Justiça e na Fifa. O clube paulista poderia ter seguido o exemplo do Flamengo, contendo as dívidas para reduzir o custo desse ônus sobre as suas despesas correntes. Preferiu investir as receitas em atletas caros e obter desempenho esportivo primeiro, mas enfrenta penhoras e precisa adiar pagamentos, atrasando direitos de imagem e comissões. Nesse contexto, apelou para o patrocinador custear seu maior reforço, Memphis Depay, que recebe quase R$ 3 milhões por mês, fora bonificações. Entretanto, o clube tem hoje receitas para investir no futebol mais do que faz atualmente.
O São Paulo e o Santos são os outros paulistas com atrasos. No Botafogo, há relatos de pagamentos pendentes de comissões e contração de empréstimos. Flamengo, Vasco e Fluminense estão em dia. No Internacional, há contratações com pagamentos pendentes. Na prática, os dirigentes que esbravejam contra os preços dos atletas não estão dispostos a debater o tema sem o escudo de seu clube na frente. Vários da Série A foram procurados oficialmente e não se manifestaram, incluindo Corinthians, Palmeiras, Atlético-MG, Grêmio, Inter, Cruzeiro, Botafogo e Fluminense.
Leila Pereira, presidente do Palmeiras, emitiu comentários este ano, antes da divulgação de que o clube chegou a R$ 1,2 bilhão em receitas operacionais em 2024.
– O problema do futebol é o descontrole financeiro. Somos responsáveis financeiramente e por isso conquistamos títulos. Se você não for responsável, pode até ganhar um título, mas depois vai ter problemas. Precisamos de uma regulamentação – pediu.
Exemplos e ameaças de fora
Pelo mundo, há exemplos de que o problema pode ser combatido. Na Espanha, por exemplo, houve um controle orçamentário. Depois disso, em 10 anos, os clubes liquidaram as dívidas e os atrasos de salários. Mas é necessário uma organização que previna que eles façam isso. Isso pode ser feito de duas formas: ou através de uma legislação, uma regra da Liga, da federação, que é de fora pra dentro, ou pode ser feito via estatuto do clube, que poderia penalizar o dirigente que é irresponsável do ponto de vista fiscal. A segunda discussão também engatinha no Brasil.
“Hoje você tem mais recursos. A curva de receita dos clubes subiu. Estão colocando mais em jogadores. Mas isso é um movimento que o futebol brasileiro vai experimentar de qualquer maneira. Ainda está com valor degradado em relação ao potencial dele. O volume de recursos vai aumentar”, prevê Fred Luz.
É nesse cenário que mesmo as SAFs correm perigo de quebrar. Por isso, é necessário que modelos de profissionalização, com ou sem investidores, virem exemplo. Assim, a dívida poderá cair, como fizeram Flamengo e Palmeiras, e o futebol brasileiro poderá se tornar mais competitivo com outros centros contra os quais já rivaliza em investimentos.
“O futebol brasileiro vai começar a ficar competitivo com os países do meio do caminho, como Portugal, Ucrânia, Rússia. Estamos chegando nos padrões do mercado internacional. Hoje tem que olhar a folha salarial do Flamengo, do Palmeiras, e tem que comparar com a do Benfica, do Porto, do Shaktar, do Zenit. E tem o futebol árabe”, acrescenta o sócio da Alvarez & Marsal.
Nova centro de investimento no futebol, a Arábia Saudita investe o dinheiro do fundo soberano do país em sua liga, e também inflaciona o mercado internacional, incluindo o Brasil. Com a diferença de já exportar seu torneio para ser exibido pelo mundo, algo que os clubes brasileiros ainda não conseguiram tirar do papel. Nos Estados Unidos, a MLS estabelece teto salarial para jogadores. Messi, que recebe acima, teve aprovação da liga. No Brasil, não há um fórum para o debate que funcione de fato. Logo, prevalece a lógica do mais esperto, da farinha pouca, meu pirão primeiro.