A palavra aposentadoria é rapidamente rejeitada quando mencionada a Oswaldo de Oliveira. Aos 74 anos, o técnico multicampeão pelo Corinthians e com passagens por quase todos os grandes times do país sonha com uma nova oportunidade de trabalho.
Sem clube desde 2019, quando ficou por apenas sete jogos no Fluminense, Oswaldo sente que o telefone parou de tocar por suas reações a quem ousou se meter no seu trabalho. Em outras palavras, quando houve tentativas de interferência externa, seja de dirigentes ou de empresários.
– Esses dias mandei uma mensagem para algumas pessoas que trabalharam comigo. Escrevi assim: "O futebol nos faz muita falta, mas acho que a gente também ainda faz falta ao futebol". E acho que eu podia estar colaborando muito mais hoje na posição que estou, com a experiência que tenho – disse.
A rotina atual de Oswaldo inclui devorar programas esportivos na televisão, fazer exercícios físicos e ajudar a esposa no trabalho como atriz. Logo depois da entrevista de pouco mais de 1h30 ao Abre Aspas, no Rio de Janeiro, ele revelou, em tom de brincadeira, que recentemente fez até um "bico" como ator em um filme rodado em São Paulo em que a sua mulher, a atriz Jennifer Setti, participou.
Oswaldo interpretou ele mesmo: um carioca nascido no Rio Comprido que tem Realengo no coração e vai muito além do meme que marcou um pedaço da carreira do irmão Valdemar Lemos e que entristeceu a mãe dona Santinha, uma figura inspiradora na família.
Tenho muita saudade do campo porque às vezes eu quero reparar algumas coisas que considero equivocadas que vejo nos jogos
— Oswaldo de Oliveira.
Ficha técnica
Nome: Oswaldo de Oliveira Filho
Idade: 74 anos
Profissão: técnico de futebol
Carreira: Corinthians, Vasco, Fluminense, São Paulo, Flamengo, Vitória, Santos, Al Ahli, Cruzeiro, Kashima Antlers, Botafogo, Palmeiras, Al-Arabi, Atlético-MG e Urawa Reds.
Títulos: Brasileirão (1999 e 2000); Mundial de Clubes (2000); Copa Mercosul (2000); Copa do Brasil (2015); Supercampeonato Paulista (2002); Campeonato Paulista (1999); Campeonato Carioca (2002 e 2013); Liga Japonesa (2007, 2008 e 2009); Supercopa do Japão (2009 e 2010), entre outros.
Abre Aspas: Oswaldo de Oliveira
ge: Você completa 50 anos de carreira em 2025, desde o início na preparação física do Bonsucesso em outubro de 1975. O que você vê daquilo que construiu no futebol?
Oswaldo de Oliveira: – Minha relação com o futebol começou muito antes, quando eu ainda era bem infantil, com meu pai, apaixonadíssimo por futebol, que me colocou essa sementinha. E a paixão foi instantânea. E eu, ao longo da minha vida, nunca admiti ficar longe do futebol. Eu tentei ser jogador, não consegui. Então, como não queria me afastar do futebol, fui buscar outras alternativas. Pensei até em ser árbitro, mas vi na preparação física, com uma influência muito grande do professor Carlos Alberto Parreira, que foi meu professor no curso ginasial, lá nos idos de 1960, em Bangu, no Colégio Estadual Professor Dalto Santos, a oportunidade de continuar próximo do futebol.
– Fiz o curso e busquei imediatamente um posicionamento num clube, para começar a estagiar, a trabalhar. No dia 1º de outubro de 1975, surgiu essa oportunidade no Bonsucesso, e eu agarrei sem titubear. Na época, eu estava recém-formado em Educação Física havia três meses. Eu tinha vários trabalhos, tive que abandonar alguns deles, ganhando menos para iniciar no futebol.
O Parreira, por não ter sido jogador e ser um preparador que se tornou treinador, foi a sua primeira grande referência no futebol?
– Sem dúvida, porque foi meu professor no curso ginasial nos anos 60. Depois, ele dirigiu a seleção de Gana, foi para a seleção brasileira e continuou dando aula no meu colégio. Ele trouxe muitos slides da experiência na Copa do Mundo de 70 no México. Uma vez por semana, ele mostrava aqueles slides, reunia turmas. Aquilo me empolgou.
Foi e é difícil essa transição de quem nunca jogou futebol profissional?
– Continua sendo. É muito difícil. Tanto que eu, no início, não admitia ser treinador. Eu dizia que não queria. Eu me dediquei 23 anos à preparação física. Procurava melhorar de tudo quanto era maneira e não admitia, mas algumas pessoas que trabalhavam comigo, que me conheciam, falavam que tinha jeito. Algumas oportunidades aconteceram e eu não admiti, em princípio. Só depois, quando o tempo passou muito e aí com muito mais experiência, passei a admitir a possibilidade de dirigir uma equipe de futebol.
Como você foi parar no Catar sendo preparador físico?
– Eu já era, em 1980, preparador físico do Botafogo. Um dia, eu estava chegando na concentração e tocou o telefone. Quando atendi, era o professor Jaime Valente. Eu trabalhei como preparador físico no América, e ele dirigiu a equipe. Ele disse que estava indo para o Qatar com o Evaristo (de Macedo), ele vai dirigir a seleção principal, vou dirigir a seleção sub-23. O Evaristo me falou para escolher o preparador físico, porque na sequência eu assumiria o lugar dele. Bicho, eu fui no Atlas procurar onde ficava o Catar.
– O Catar era uma verruga da Arábia Saudita. Mas eu achei uma oportunidade muito boa, não só financeiramente como profissionalmente. Quando cheguei lá, não tinha nada. Nós jogávamos num campo, que é o Dohinha, e trocávamos de roupa às vezes na escola do lado. Era uma coisa muito incipiente, devagar ainda. Mas o Evaristo fez um trabalho maravilhoso, em 1980. Um ano depois, nós conseguimos a proeza de ser vice-campeão mundial sub-20 na Austrália, ganhando nas quartas de final do Brasil, que era um timaço. Na semi, ganhamos da Inglaterra e perdemos a final para a Alemanha
Acha que a preparação física evoluiu tanto a ponto de acabar um pouco com o futebol que a gente conhecia?
– Não tenha a menor dúvida. A evolução, a força, acabou atropelando a arte. Embora a gente ainda tenha jogadores com muita qualidade. Mas isso aconteceu realmente. Primeiro que, depois das Copas do Mundo de 1958 e 1962, foi um martírio para os europeus. Veio o Brasil engolindo, com jogadores de extrema habilidade. Pelé e Garrincha foram os principais. Os caras começaram a vir para o Brasil para estudar os nossos jogadores. E eu me lembro que, na época, os russos estiveram aqui. Eles falaram que não dava para, por exemplo, marcar o Garrincha com um jogador só. Então você tem que fazer um jogador voltar para marcá-lo. Mas para esse cara assumir a atitude de atacante e de defensor, ele tem que melhorar fisicamente. Acho que esse foi o ponto de partida.
– Na Copa do Mundo de 1966, a gente viu as equipes participando muito mais, tanto na ação defensiva quanto na ofensiva. A preparação física foi evoluindo muito, assumindo outros patamares que davam muito mais qualidade física ao jogador para que ele desempenhasse várias funções dentro do campo e assim pudesse participar mais do jogo. Não só tecnicamente, mas como taticamente também. E isso foi uma produção que não parou mais. Qual foi o resultado disso? Diminuição de espaços. Acabou produzindo jogos muito mais intensos, mas com muito menos plasticidade do que nós tínhamos naquela época.
E como foi a sua transição de preparador para auxiliar e depois para técnico?
– Foi "brabo". O Corinthians foi um divisor de águas na minha vida. Eu tinha uma atitude profissional, e dali para frente tive que ter outra. Você, quando assume como treinador, tem cargos ilimitados. E isso para mim foi realmente muito pesado, porque estava assumindo a equipe campeão brasileira de 1998, substituindo o treinador campeão que foi para a seleção brasileira. Aquilo foi muito pesado. Os primeiros momentos foram muito difíceis, mas eu já tinha bastante experiência no futebol, e rapidamente também consegui superar essa primeira fase da tensão máxima.
A dificuldade era no relacionamento com o jogador? Porque às vezes você tem um relacionamento como auxiliar e tem que ter outro como chefe...
– Foi ótimo, porque eu já conhecia os jogadores há um ano, tinha trabalhado com eles como auxiliar. Eles gostavam de mim, e eu gostava deles. Isso incrementou muito a nossa relação.
Era difícil lidar com Rincón, Vampeta, Marcelinho, Ricardinho, Edilson...
– Nada, era mole para mim, porque os caras gostavam de mim, e eu gostava deles. Eles faziam tudo para me ajudar. Foi muito legal isso. Eu sou eternamente grato a esses caras.
Mas era um time que brigava bastante. A gente ouviu muita história...
– Era o melhor time do Brasil na época. Iam falar de quem? Do time lá do interior que não ganhava nada? Tinha que falar deles. Mas eles eram maravilhosos, profissionais, prestativos. Tem um lance que eu gosto sempre de contar. Quando nós ganhamos o Campeonato Brasileiro em 1999, ficou um espaço para iniciar o Mundial. Eu dei folga até o Natal. No dia 26 de dezembro, nós reiniciamos o treinamento e fomos até o dia 30. Marquei a volta para o dia 2 de janeiro, porque nós já estrearíamos no dia 4. E aí os repórteres na coletiva... "Oswaldo, você acha que Edilson e Vampeta vão para Salvador passar o réveillon e vão voltar?".
– Dia 2, quando estacionei meu carro, já estavam os carros do Vampeta e do Edilson. Desci do carro, a imprensa veio toda dizendo: "Oswaldo, os caras chegaram aqui antes de você". Foram perguntar para o Edilson, né? Ele falou que não dava para sacanear o Oswaldo. Isso para mim é emblemático, sabe? A nossa relação era muito próxima, além de ser muito profissional. Eles eram muito profissionais.
O Corinthians foi o melhor time que você treinou?
– Foi, até pelo tempo que eu fiquei com o time. Aquele Vasco de 2000, se o trabalho não fosse interrompido, acho que poderia ter chegado, porque também tinha muita qualidade. Mas o Corinthians tinha uns caras jogando demais. Edilson, Marcelinho, Ricardinho, Kleber, que tecnicamente jogava para caramba. Depois a gente ainda teve mais o Fábio Luciano, Adilson Batista. Os caras jogavam muito. Mas o Vasco de 2000 era um timaço. É que a gente não conseguiu dar continuidade. Juninho Paulista, Juninho Pernambucano, Romário, Jorginho, Mauro Galvão, Júnior Baiano, Viola, Euller... Era um timaço também. Eu acho que se a gente tivesse avançado, os dois iam brigar.
É curioso pensar que o Vasco ganhou do Manchester United, e o Corinthians empatou com o Real Madrid...
– Era uma época que dava para competir contra esses grandes times, ainda tinha muito jogador aqui. E aquele jogo com o Real Madrid foi maravilhoso. Um jogo de alternativas, de craques dos dois lados. Nosso time com alguns jogadores inspiradíssimos. Eles também, aquele Fernando Redondo, Anelka, Roberto Carlos. Meu Deus do céu, que pesadelo aqueles caras. E a gente teve que se desdobrar para conter aquele time e ser efetivo. Atacando ao mesmo tempo.
Como foi ver aquele Maracanã lotado, com metade da torcida do Corinthians?
– Não foi a primeira vez. Em 1976 eu fui lá. Foi no dia do meu aniversário. Eu estava na casa de um amigo meu, tricolor, Nelson Rodrigues. Olha a coincidência. Ele era Nelson Rodrigues Filho, assim como o Nelson Rodrigues tinha o Nelson Rodrigues Filho também, ali no Grajaú. Esse jogo de 76, eu assisti de lado. Eu não conseguia virar, não conseguia colocar os pés no chão de tão cheio que estava o Maracanã. Em 2000, 25 mil corintianos no Maracanã. Foi ali que surgiu o Todo Poderoso Timão.
– Acho que eles entenderam que tinha que ser num ritmo para gente aguentar 90 minutos. E em determinado momento do jogo eu comecei a ouvir aquilo: "Todo Poderoso Timão". Aquilo foi tomando conta, deu uma energia para o nosso time. Muito bacana. Aquilo é uma lembrança, eu fico arrepiado até hoje. É uma lembrança inestimável, inesquecível. Maravilhoso. Ave, Corinthians, muito obrigado.
A gente ouve muito falar sobre relacionamento. Você acredita que isso talvez tenha uma porcentagem muito grande no trabalho de um treinador?
– Toda vez que dou palestra para treinadores eu digo que o treinador tem que ter o poder de convencimento. Se você não convencer o jogador daquilo que quer no time, não vai conseguir nada. Você pode não ter nada esplendoroso na cabeça, mas se conseguir convencer os caras que vão para o jogo de fazer aquilo que você quer, você está dando um passo muito grande. Isso é uma coisa que se traduz em confiança, em lealdade. Quando você não consegue isso dos jogadores, está fadado à derrota. Às vezes, você transforma uma equipe mediana numa altamente competitiva, porque é o desejo do jogador.
É difícil também essa pressão do jogador ficar 10, 15 anos se privando de um monte de coisa, né? O Ronaldinho Gaúcho parou com 34. Você deve ter visto muitos exemplos parecidos. É frustrante?
– É muito individual. Tem um cara que vem muito melhor preparado e consegue superar todas essas adversidades. Um cara como o Ronaldinho vai ser muito mais assediado, estará muito mais exposto a interferências externas que acabam colaborando para que ele não alongue sua carreira ou que durante não se dedique tanto. Depende muito de quem é. Eu trabalhei com o Zé Roberto no Palmeiras. Todo dia de manhã, quando eu chegava para treinar, encostava o meu carro e ele já havia chegado. Ele estava dentro da piscina, na fisioterapia ou na musculação. Com 41 anos, estava procurando melhorar, beneficiar a condição dele de jogador. Esse é um exemplo.
– Outros não conseguem, né? Quando eu parava meu carro em alguns clubes, um jogador dormiu dentro do carro, porque ele tinha virado a noite sem dormir em algum lugar. E provavelmente deve ter bebido, não estava preparado nem para o treino. Se você não se preparar para o treino, não vai estar preparado pro jogo.
Como é ter esse papel de educador?
– O Kaká era um exemplo. Um cara disciplinadíssimo. Ele se propunha a fazer aquilo que ele queria e fazia tudo muito certinho. O Robinho era um cara muito mais alegre, muito mais expansivo. E por isso, às vezes, um pouco mais disperso. Mas foi um dos maiores jogadores que eu trabalhei. Se eu escalar um time do Santos de todos os tempos, o Robinho vai ser titular.
– Eu acho que, até pela condição que aconteceu com o Robinho (condenação por estupro na Itália), a gente está esquecendo muito da qualidade do jogador. Ele foi um jogador excepcional. Um dos grandes jogadores do Brasil em todos os tempos. Mas ele tinha um comportamento diferente de relação com amigos, de relação com outras pessoas, da vida particular fora do futebol. E isso sempre acaba interferindo no produto final.
– O Gabriel Jesus foi uma exceção fantástica, porque eu nunca vi um jogador tão corajoso aos 16 anos quanto ele. Eu ficava impressionado, porque ele já era dissonante na idade dele, e isso provocava uma ansiedade muito grande pela carência de valores. Eu dizia que ele tinha que trabalhar muita coisa, cabeceava de olhos fechados, não sabia chutar com a perna esquerda. E ele encarava.
E o meme do "Gabriel, Gabriel"?
– Está relacionado. Embora eu já tivesse tido a mesma experiência com o Gabigol no Santos. Foi muito parecido. Os dois com a mesma idade, o mesmo nome, e passando por uma situação muito similar. Eu acho que no Palmeiras cresceu mais porque a gente trabalhou o Jesus um pouquinho mais do que o Gabigol no Santos. O Gabigol já começou a jogar antes. O Jesus veio um pouco depois, então eu precisei fazer aquela preparação com ele.
Você tem muitas feridas no futebol?
– Sem dúvida, claro que sim. Mas os momentos de felicidade foram muito maiores. A goleada é 7x1. É lógico, futebol é muito difícil. Você sempre encontra algumas dificuldades. Mas, para mim, o futebol foi muito generoso, me proporcionou coisas muito boas, que eu, de vez em quando, recordo. Não sou saudosista, mas eu amo as coisas boas que aconteceram.
Você falou no passado, está aposentado oficialmente?
– Não, de jeito nenhum. Vou até interromper. O meu telefone não tocou mais. E isso é incrível, porque foi no melhor momento da minha carreira, com experiência. Eu fico vendo os jogos na televisão e digo: "Pô, eu teria feito diferente".
Tem saudade do campo?
– Tenho muita saudade do campo porque às vezes quero reparar algumas coisas que considero equivocadas do que vejo nos jogos. Por exemplo, eu criei um módulo de treinamento que chamo definição da marcação dentro da área. Às vezes, você vê um atacante dentro da área, seis defensores, e esse cara está livre e faz o gol. Há pouco tempo eu vi isso. Por que as pessoas não atiram? Aquilo é treinável. Você precisa criar situações no treinamento para impedir que o jogador fique livre dentro da área pra fazer o gol embora tenha seis caras pra marcar. Quer dizer, fica na cabeça aquele negócio de fazer a linha, de marcar a bola. Os caras marcam a bola e esquecem que tem um cara livre. Nesse dia a gente viu isso, três vezes nesses jogos decisivos. Então, essas coisas eu acho que a gente ainda tem pela experiência para passar, mostrar que muita coisa boa ainda pode ser feita.
Te atrai uma outra função no futebol, como coordenador, por exemplo?
– Em princípio, não. Mas agora eu acho que vou conseguir fazer bem essa função. Aliás, tem algumas pessoas que dizem que eu vou ser melhor nela do que era como treinador, preparador físico.
Por que você acha que o telefone não toca?
– Tem muitas instâncias. Na verdade, eu acabei criando algumas antipatias, vamos dizer assim, por não aceitar determinadas coisas. Principalmente dos dirigentes. O dirigente quer interferir, mandar no teu time, quer escalar, contratar o jogador que ele quer. Isso foi uma coisa que tem me atrapalhado muito. E as posições que eu tenho com relação a isso e a outros pontos de vista também, de não aceitar determinadas coisas.
– É claro, há treinadores excelentes que vêm de fora. Tem treinador excelente no Japão. O futebol abriu. Impressionante. Mas isso, no meu ponto de vista, não depõe contra a qualidade do treinador brasileiro. Ficou uma coisa muito da moda. Às vezes você traz um treinador promissor. No Brasil, você tem um monte de treinadores promissores. Caras fazendo grandes trabalhos: Roger Machado, André Jardine, Thiago Carpini, Jair Ventura, Alberto Valentim. Porra, será que esses caras que têm a menor condição do que um cara que trabalha no interior de um país onde o futebol não tem a qualidade que o futebol brasileiro tem? Eu acho que essas coisas, num montante, numa reunião de características, acabaram me afastando também.
Como é essa relação com o técnico estrangeiro trabalhando no Brasil?
– É um pecado. Fizeram uma edição, e eu não considero que tenha sido mal-intencionada. Eu estava dizendo que os portugueses vêm trabalhar no Brasil, não precisam do documento, não precisam de nada. Chegam aqui e no dia seguinte estão trabalhando. E os brasileiros são proibidos de trabalhar em Portugal. Essa a relação que eu fiz. Não a presença de portugueses. Alguns são excelentes treinadores.
– A referência que eu fiz nesse dia era exatamente a essa disparidade. Para trabalhar em Portugal e agora em outros países, você precisa ter o curso tal, feito não sei onde. Aqui não. O cara chega, dia seguinte ele está com um apito dando treinamento. Eu acho que isso, para o Brasil, para o brasileiro, é no mínimo vergonhoso. Dá a impressão de que entra qualquer um, isso aqui não tem comando nenhum, não tem organização. Era a isso que eu estava me referindo naquele momento, só que fizeram uma edição e a coisa foi colocada como se eu fosse contra a contratação de portugueses. Não sou.
Já sentiu na pele a interferência de dirigentes ou empresários?
– Muitas vezes, quase todas as vezes...
Mas você sabe que eles sempre dizem que não, que nunca interferiram.
– Não sei, aí é outra história. Publicamente, cada um fala uma coisa. Comigo já aconteceu várias vezes. E eu sempre repudiei, eu rechaço.
E como acontece? No vestiário, no dia seguinte ao jogo?
– Várias oportunidades. Tempos atrás, o dirigente com a rede social no telefone, vendo o que os torcedores estão falando pra contrapor o treinador... Isso é o fim do mundo. Tem muita gente que vê o futebol como quem está na frente de um aquário. Tem cada tubarão com a boca desse tamanho. Você sabe que o cara não vai chegar em você. Então, é mole ter opinião, de escalar, de dizer que esse cara não presta. Entra lá dentro e encara o tubarão para ver se você vai ter a mesma opinião. Ficar emitindo opinião sem o fervor, sem a cobrança, é mole. Aí eu falo o que eu quiser. Vou tomar um vinho, vou para casa dormir, é uma beleza. Agora, quando você tá dentro do problema, é outra história.
– Eu fiquei muito triste com a falha do juiz que marcou o pênalti contra o São Paulo (a favor do Palmeiras). Julgaram o cara por um ato, uma coisa que aconteceu naquela hora. Aí todo mundo coloca o nosso árbitro como o pior do mundo. Eu também achei que não foi pênalti. Mas você não pode julgar a atitude dele por um fato. Tem que ter um pouco mais de sensibilidade e admitir que isso é possível de acontecer. O futebol está aí para isso.
Você foi modelo da Coca-Cola na Copa do Mundo de 1978. Você já estava no futebol?
– Já estava, foi oi muito legal. Eu estava no sub-20 do América. O pessoal da produção do comercial começou a correr os clubes e pegar pessoas para participar. Eu, cabeludão, 27 anos... E nos selecionaram: Alexandre, goleiro, o Edson, ponta-esquerda. A gente foi num sítio no Recreio dos Bandeirantes para fazer a gravação. Passou a Copa do Mundo inteira. Eu acabei interferindo no roteiro, falei, para botar uma lambretinha. Fui lá e fiz. Era legal porque o cara ia na carroceria da Kombi, com a câmera. Ele chuta a bola na direção da cabine. Eu ia conduzindo a bola na direção da cabine e aí fazia aquela lambretinha.
Sempre foi um cara vaidoso?
– Eu acho que a vaidade é uma coisa que está no ser humano. Claro que tinha um pouco. Eu usava um cabelão Beatles, grandão. Eu gostava bastante do meu cabelo.
Continua tendo uma vida ativa?
– Sim. Nado, corro, pedalo, faço musculação. Parei um pouquinho de jogar futebol, mas estou me preparando para voltar.
Como foi trabalhar com o Seedorf no Botafogo?
– A experiência com o Seedorf foi muito positiva. Eu acho que o Botafogo deveria ter tido esse espelho, essa referência naquele título que perdeu em 2023. Precisava ter uma grande estrela para ser o maestro dentro do camp. Nesse aspecto, ele foi sensacional. Além da qualidade técnica, um jogador muito competente dentro do campo. Mas ele tinha uma atuação muito boa também na relação, principalmente com os mais jovens. Foi um cara que interferiu positivamente.
– Todo dia, ele trocava de roupa, vinha na minha sala e perguntava o que eu estava precisando. Um cara muito bacana. Ele teve uma participação muito legal naquele grupo do Botafogo de 2012 e 2013.
Ele tinha essa visão de ser treinador, né?
– Ele já se metia um pouquinho, orientava... Ele tinha uma discordância com o Bolívar. Queria que a defesa saísse, mas o Bolívar, já mais veterano, não queria sair tanto. Então, eles, às vezes, discordavam nesse aspecto. Mas os dois eram tão altruístas, tão gente boa, que sempre acabavam se entendendo e ficaram grandes amigos.
Você falou uma vez que o Romário foi o jogador que mais te contestou. Como é que era essa relação?
– O Romário é um jogador com uma personalidade muito forte e com convicções muito baseadas. Algumas vezes, a gente teve discussões. Uma vez, nós jogaríamos a primeira partida da final da Mercosul em 2000 contra o Palmeiras. E o terror naquele jogo era o Arce, com aquelas faltas. Naquele ano, eu tinha visto o Palmeiras ganhando o Vasco em São Januário e a maioria dos gols tinham saído de bolas do dele em faltas laterais para o Galeano, que era sempre uma referência. Na preleção, antes de irmos para o estádio, eu estava explicando: o Júnior Baiano vai ficar aqui, o Arce bate essa bola assim, os outros marcam aqui. E eu me alonguei um pouco falando isso. Aí o Romário falou: "Dá para a gente atacar um pouquinho?". Eu digo: "Não preciso falar de ataque que eu tenho você, rapaz. Para que eu vou falar de ataque? Vamos preparar a defesa, o ataque eu deixo contigo".
Um episódio que todo mundo conhece muito é sobre sua saída do Vasco antes da final da Copa João Havelange de 2000. Como foi assistir àquele título de casa?
– Foi legal. Primeiro que de dentro do campo todos os jogadores me ligaram. Juninho, Jorginho, Alex Oliveira, Elton, Romário, Luizinho Quintanilha. Todos eles pegaram o telefone e me ligaram na hora. Eu sou campeão da Mercosul e da João Havelange. Foram 33 jogos, e eu trabalhei em 31. Claro que eu sou campeão.
O Joel teve contato com você na época?
– Não, não deu nem tempo. Porque foi num dia e no outro dia já estava... Não teve não.
O Eurico chegou a te ligar para voltar para o Vasco nessa última fase dele na presidência?
– Ele, diretamente, não. Mas, através de um empresário, ele tentou algumas vezes. A gente acabou não chegando a um acordo.
A questão era a dívida que o Vasco tinha?
– Também, porque o Vasco ainda não tinha me pagado. Até teve uma vez que o empresário falou assim: "Oswaldo, não se preocupa, porque não vai ser o Vasco que vai te pagar. Sou eu". Digo: "Agora que eu não vou mesmo. Vou ficar dependendo de você depositar meu salário?". E aí eu não fui para o Vasco.
Você acha que teria feito diferença nesse momento o Eurico ter te ligado? Não sei se vocês em algum momento zeraram esse assunto.
– Não. Eu sempre soube por outras pessoas que ele tinha uma admiração grande por mim. Mas a gente nunca se falou. Nós só passamos um pelo outro uma vez. Foi num restaurante aqui na Barra. Ele estava com esse empresário. E eu cheguei com o pessoal do Flamengo, que concentrava do lado. Nós fomos jantar. E os dois estavam sentados ali. Foi a única vez que eu estive com o Eurico assim.
Algum clube ainda te deve?
– Cara, eu acho que não tenho mais. Quem me deve agora são os advogados. Esses, sim. Mas os clubes, não. Os clubes com as ações cumpriram com o que eles tinham que cumprir.
Já trabalhou muito em clube que devia salário?
– Algumas vezes, sim. Teve até um fato no Botafogo que eu achei interessante. Foi em 2013. Os salários estavam atrasados e os jogadores resolveram que não iam concentrar mais, para não passar impune aquela situação que eles estavam com alguns meses sem receber. Na véspera de um jogo, o Jefferson, goleiro, veio pra mim e disse que queria concentrar porque estava com um neném novo. Então, ele foi dormir na concentração.
Como era a relação da sua mãe contigo e com a sua profissão?
– Só carinho. A mamãe era uma pessoa muito doce. Ela gostava muito dos jogadores, orava por eles. Então, ela tinha esse ímpeto de participar de uma forma afetiva, que criasse um clima favorável para a situação do futebol, que é importantíssimo. Eu não sei como, mas ela tinha essa visão também. Eu acho que por ter convivido tanto tempo com três caras que viviam no futebol, eu e meus dois irmãos, meu pai também adorava, sempre tinha o papo. A gente sempre viajou muito. Meu irmão jogou no Catar, em Portugal. O Waldemar trabalhou nesses times todos, Brasil afora. E ela sempre teve muito contato com essa presença do futebol na nossa vida. Então, acho que em determinado momento, o coração dela comandava que ela tivesse uma participação que pudesse juntar essa coisa toda para favorecer.
Ela ficava na bronca quando te criticavam? Teve aquele episódio com o Waldemar no Flamengo, que virou meme também.
– Ela ficou muito triste. Seria o primeiro Fla-Flu com dois irmãos dirigindo: eu no Fluminense, e o Waldemar no Flamengo. Só que aí, uma semana antes, o Waldemar foi demitido. Ela ficou muito triste, porque nós gravamos, teve entrevista, os três.
Você acha difícil lidar hoje em dia com rede social?
– A gente tem que ter muito cuidado. Eu tenho Instagram e WhatsApp. Gosto muito de ver as coisas do Instagram, sigo o Manchester City e alguns outros clubes brasileiros, do Japão, do Qatar. Eu sou apaixonado pelo Al Arabi, do Qatar, trabalhei 11 anos. No Kashima Antlers, do Japão, trabalhei cinco anos. Vejo muita receita, comida, adoro ver. Vejo coisas de política e, eventualmente, emito uma opinião.
– Esses dias, o Alfredo Sampaio estava falando alguma coisa da qualidade dos gramados, do gramado de artificial, e fez uma referência a que os clubes às vezes, se prestem para shows, e aí o time, não pode jogar. Pô, eu acho isso o fim do mundo. O estádio é para futebol, faz show no teatro, em outro lugar. Mas há uma ambiguidade. O estádio se presta a outras coisas. Do ponto de vista profissional, administrativo, financeiro, pode ser importante. Mas, do meu ponto de vista, você não pode tirar um jogo de um time do estádio que ele está acostumado e botar em um outro para ter um show. Como o Alfredo fez essa referência, eu fiz uma mensagem concordando.
Sem futebol, você tem se dedicado a esse tipo de hobby?
– Eu vou ser franco, abandonei um pouquinho a leitura. Eu ainda compro livros, anoto, mas abandonei um pouquinho, porque esse negócio de internet...
Seu filho está querendo seguir a carreira de treinador?
– O treinador tem umas expressões que a gente não conhece. Eu comecei a levar o Gabriel para o campo no Fluminense porque ele tem condições excepcionais. Eu me lembro um dia, nós tínhamos um jogo e íamos preparar a preleção. Quando eu cheguei ao CT, ele já estava. Eu falei: "Filho, eu estou pensando em fazer esse treino assim". Ele tem uma voz grave e falou: "Pai, acho melhor a gente fazer assim, assim, assim". Eu falei: "Legal, eu gostei. Você leva jeito". Ele ficou meio sem graça. A gente fez o que ele falou e foi muito bom, foi muito bem-sucedido. Eu acho que isso é uma coisa que a gente tem que dar o tempo necessário para que isso transpire. Não adianta forçar a barra.
– Tem muita gente que às vezes está numa situação de auxiliar e não vê a hora de passar na frente, de chegar no lugar que realmente é o objetivo. Você tem que ter paciência. As coisas vão acontecer. Quando você tenta forçar e fazer as coisas prematuramente, aquilo acaba atrapalhando. Acho que o Gabriel está no caminho certo. Ele tem estado muito bem. Todo mundo sempre faz referências muito positivas à evolução que ele vem tendo no futebol.
Esse contato com seu filho imagino também que te mantenha ativo na conversa sobre futebol, tecnologia. Hoje todo mundo tem vários dados na mão.
– Sem dúvida. O Gabriel é um cara muito fechado, quase não fala. Mas eu provoco às vezes para a gente conversar. Eu não gosto de interferir muito porque estou de fora, ele está com o trabalho, tem sempre treinador. Os caras são meus amigos. O Fernando Diniz trabalhou com ele, o levou para a Seleção. E agora o Mano, são pessoas que eu já me relacionei. Eu procuro não ficar dando muita opinião. Mas eventualmente, uma coisa ou outra, a gente sempre troca algumas ideias.
O que você ainda almeja no futebol aos 74 anos?
– Não é só ganhar títulos, é você participar da transformação das pessoas. Interferir no caráter. Quando você vê que um cara bem-sucedido, ganhador, teve a tua interferência. Ou, mesmo quando ele não é um ganhador, não é um vencedor de título, mas se transformou numa pessoa melhor através do seu trabalho. Isso para mim é impagável.